Demorei muito tempo para aceitar que “EU NASCI NÔMADE”…

Sempre que me perguntam de onde eu vim, respondo: “- Sou mineira, criada em Góias, com estágio em Mato Grosso do Sul e em Brasília desde 2010. Ah, e morei na Irlanda também.”. Esse é um resumo básico para dizer que já morei em vários lugares e, que pertenço ao mundo, e não a um lugar específico.

2015 – meu último dia morando na Irlanda

Eu fui uma adolescente que tinha dificuldades de fazer amigos. Eu sofria com a ideia de chegar a um novo lugar, encontrar a minha turma, me apegar, mudar novamente e reviver todo o ciclo, porém, foi assim que eu vivi durante muitos anos. Deixei amigos, namorados, histórias, sonhos…

O ápice foi quando me mudei para Brasília. Antes de adotar essa cidade como minha, sobrevivi alguns meses com meu corpo ali e meu coração longe. Não queria deixar tudo para trás novamente. Não conseguia aceitar que mais um ciclo tinha se encerrado. Nesse ponto a tecnologia me “ajudou”. Todos os dias eu tinha um encontro marcado com as minhas amigas, para viver online o que, por muitas anos, vivemos ao vivo. Frequentemente eu voltava para matar a saudade. Até que em um determinado momento a vida me contou, em alto e bom som que eu precisava seguir o meu caminho e, que viver assim não fazia mais sentido, eu precisava estar presente de corpo e alma para viver a minha história. Me lembro, como se fosse hoje, o dia em que tomei a decisão. Me olhei no espelho e falei a mim mesma: “- Ou você aceita Brasília ou você aceita Brasília. Você não tem outra saída.”.

A partir desse dia as coisas mudaram drasticamente. Chutei o pau da barraca, pedi demissão (na época eu trabalhava na minha área de formação – gestão financeira) e, em poucos meses estava amando Brasília.

Logo, minha família decidiu, mais um vez, se mudar e eu, agora fascinada pela ideia de me fixar em um único lugar, disse: “- Daqui não saio. Podem ir, eu vou ficar”. E fiquei. Morei sozinha, criei raizes na cidade que sou apaixonada, trabalhando com o que amo. Pouco tempo depois, fui buscar um sonho que me acompanhava desde a adolescência, o intercâmbio. Fui para a Irlanda, com data marcada para voltar, afinal, agora eu tinha raizes.

Assim que voltei para o Brasil, em 2015, descobri um modelo de trabalho chamado nomadismo digital, que consiste em você trabalhar de onde estiver com seu laptop e acesso a internet. Estudei tudo o que podia sobre o assunto, fiquei apaixonada por esse modelo. Com a minha profissão o caminho é certeiro. Ao mesmo tempo que eu queria mergulhar de cabeça nesse estilo de vida, eu vivia o conflito de, novamente, deixar para trás, todas as pessoas que tinham um lugar no meu coração. Sem contar a minha carreira que já tinha uma estrutura.

Inconformada com essa dualidade de lutar contra meus sentimentos e ficar na retaguarda deixando a vida passar, eu fui buscar me conhecer, saber quem eu sou e o que estou fazendo nesse mundo. Assim, eu descobri, que não estou deixando nada para trás. Estou apenas seguindo o fluxo da minha caminhada. Os meus amigos continuam sendo meus amigos, vivemos momentos prazerosos de reencontro, nos divertimos contando nossas histórias, e usufruímos ao máximo o tempo que temos juntos, afinal agora ele é escasso. Descobri que a cada lugar que passo a quantidade de amigos só aumenta e que, a minha felicidade, hoje, está em descobrir onde essas descobertas vão me levar.

Assim eu agradeço a todos os meus amigos que, mesmo que por um curto momento, marcaram a minha história. São vocês que hoje, me fazem acreditar que eu não sou como uma árvore que tem raízes, e sim, como um pássaro pronto para voar um mundo sem fronteiras. Hoje, quando me reencontro com vocês, cada história, cada palavra, cada abraço, cada troca de olhares se transforma em alimento para que eu posso encarar novos desafios. Eu sei que vocês estão comigo para o que der e vier.

Eu passei os últimos meses me preparando para hoje assumir: EU SOU NÔMADE. E pra mim ser nômade é viver com prazer todos os dias independente da minha localização geográfica. É estar 100% presente, é valorizar o lugar e a presença de cada ser que cruza o meu caminho. Ser nômade é ser livre para viver um dia de cada vez como se fosse o último.

Quero encerrar esse texto convidando você, para acompanhar a minha nova missão. Já estou nômade e contando os dias para embarcar oficialmente na minha primeira aventura distante da minha terra.

Gratidão! Com amor,

Ana Tereza Borges